O Isotônico e a Luva
O Isotônico e a Luva
O fato se deu em uma praia, nas férias de verão, e por mais incrível que possa parecer dizem que foi verdade.
Dois irmãos foram juntos para o balneário e os pais ficaram na cidade trabalhando. O que não seria de todo um problema visto que o mais velho tinha vinte e cinco anos e o outro, dezesseis. Um era jogador de futebol profissional, o outro estudante do ensino médio. Até aí tudo normal, se não estivéssemos tratando de irmãos, sozinhos, na praia, convivendo juntos por algumas semanas e ninguém para impedir as implicâncias e apartar as tradicionais brigas.
O irmão mais velho todo dia pelo final da manhã ia para a beira-mar jogar futevolei. Talvez jogador de futebol seja o único profissional que tira férias para fazer exatamente o que faz quando está trabalhando, ou seja, jogar bola. Mas antes de sair, todo dia, ele deixava pronto uma jarra com dois litros de isotônico.
O isotônico é uma bebida constituída por água, sais minerais e carboidratos, quase na mesma concentração dos fluidos do corpo e que o atleta toma para repor líquidos e sais minerais perdidos pelo suor durante a transpiração, com efeito de prevenir a desidratação e melhorar a performance esportiva. Ou seja, frescura de jogador de futebol.
O problema começou logo no segundo dia. Após algumas horas de futevolei num sol escaldante, o jogador ao voltar para casa próximo das três da tarde, com muita sede, ao abrir a geladeira para pegar sua bebida, surpresa! A jarra, que estava cheia quando ele saiu, não devia ter mais que um terço do que ele tinha deixado. O irmão mais novo tinha acordado quase ao meio-dia, achou ótimo encontrar aquele suco na geladeira e bebeu, bebeu e quando estava quase estourando, bebeu mais um pouco.
Estava feita a confusão, o mais velho fez a maior gritaria e ameaçou o mais novo que dá próxima vez ele iria tomar uma atitude mais contundente. O que na fraternal línguagem de irmãos significa “porrada” mesmo.
Nos dias que se seguiram aconteceu rigorosamente a mesma coisa, um ameaçava, o outro bebia. Aquele guri adolescente parecia a encarnação do demo. Não estava nem aí para as promessas do mais velho, que tolerou enquanto conseguiu, mas toda paciência tem limite.
Após duas semanas nesse embate e nas promessas diárias de esbofetear o irmão, o mais velho resolveu agir. Ao sair pela manhã foi ao quarto do mais novo, acordou o desgraçado e o jurou de morte. Se ele pegasse o suco aquele dia o bicho iria pegar.
Quando o mais novo acordou naquela manhã, foi na geladeira pegou o isotônico e lembrou-se das ameaças. Resolveu nesse dia tomar um achocolatado e esperar o mais velho se acalmar um pouco, afinal prudência estratégica poderia ser muito saudável naquela situação e aparentemente as advertências finalmente surtiram efeito. Talvez a parte mais dificil de engolir a respeito dos fatos deste dia é que o guri achou a casa suja e pensou em limpar. Sim, fazia duas semanas que estavam na casa da praia e nunca tinham passado uma vassoura no chão, já tinha uma camada de areia da cozinha até a sala. A situação era tão nojenta que ele resolveu fazer o improvável, pensou em marcar uns pontos com o mano mais velho e varrer o chão.
Pegou a vassoura e começou a varrer. Lá pelas tantas começou ouvir um barulho alto vindo da rua, foi até o pátio e viu voando baixo, rasante mesmo, um helicóptero da polícia bem em cima da casa. Mas era tão baixo que o vento que as hélices faziam começou a jogar de volta para dentro de casa toda a areia que ele tinha varrido para fora. O guri enlouqueceu. De vassoura empunho apontava para os policias que sobrevoavam a casa, xingava, fazia gestos obcenos e já estava a ponto de arremessar a vassoura na aeronave quando a mesma se afastou da casa.
Ele, louco da vida, começou a varrer de novo. Toda a areia e mais um pouco tinha voltado para dentro de casa. Após alguns minutos do reinicio da varreção ele escutou o barulho do portão ranger. Portão de praia, com aquela tradicional maresia, sempre faz o clássico “nhéééc”.
Foi na porta da cozinha, que ficava do lado da casa, espiou para ver quem era e nesse momento teve um ataque de pavor. Entrava no portão três policiais, armados e de colete à prova de balas. Ele pensou em se ajoelhar e pedir perdão por ter feito os xingamentos, dizem alguns mais chegados que para a cueca foi perda total. Mas logo atrás dos policiais entraram mais duas pessoas, uma prima e outro policial que aparentava estar vestido como um piloto. A prima é delegada em cidade próxima ao balneário e era ela que estava no helicóptero, aeronave utilizada na operação que a polícia fazia nas férias. Contou que sobrevoara a casa para ver se tinha alguém, pois o piloto não estava se sentindo bem e dada a situação de indisposição ela achou que seria uma boa idéia parar ali, o que fizeram, pousando em um terreno próximo e indo a pé até a dita moradia.
A prima delegada perguntou se tinham alguma coisa para oferecer para o piloto e o caçula teve a brilhante idéia:
- Tem isotônico, serve?
Claro que servia, com a sede que estavam qualquer coisa gelada servia. E os políciais tomaram todo o isotônico. Todinho. E pior, após beberem ficaram somente mais alguns minutos, como o piloto já estava se sentindo melhor, agradeceram e foram embora.
Quando o mais novo se deu conta da bobagem que tinha feito entrou em pânico. Pensou em fazer um suco novo. Nunca tinha feito o tal isotônico, mas entre morrer e tentar fazer a bebida, a segunda opção parecia melhor, mas nesse momento de dúvida ele escutou o portão abrir de novo e para desespero total era o irmão mais velho. O guri correu para sala e ficou atrás da mesa com uma remota esperança de escapar vivo.
O jogador chegou, viu a garafa vazia em cima da mesa da cozinha e abriu a geladeira. Nesse momento teve a certeza que teria que cometer um assassinato. Totalmente transtornado saiu à caça do mais novo. Encontrou o caçula com uma cara de pânico atrás da mesa da sala gritando:
- Eu posso explicar! Eu posso explicar!
Ficaram correndo como dois malucos ao entorno da mesa, mas não demorou muito para o mais velho pegar o mais novo. O maior pegou o menor pelo pescoço, daquele jeito em que os pés ficam balançando no ar, apontou a mão fechada como se fosse disparar um direto no nariz e disse praticamente como uma sentença de morte:
- Explica.
As palavras não saiam da boca do guri, que respirando como dava, já que praticamente estava sendo estrangulado, disse:
- Cara tu não vai acreditar, mas desceram quatro caras de helicóptero e tomaram todo o isotônico e a prima tava junto.
Nem preciso dizer que após esse relato tão inacreditável quanto o ET de Varginha, a condenação já estava definida. Iria rolar muita pancada.
O mais velho respirou fundo, soltou o pescoço do mais novo e dasanimadamente concluiu:
- Tu é maluco, não é possível. Nunca ouvi tanta mentira junto. Bater em ti não adianta. Se eu não fizer nada tu nunca vai mudar.
Pegou o telefone e ligou para casa, falou com a mãe e tomaram uma importante decisão, iriam mandar o irmão caçula de volta para casa, ele iria passar o resto do verão frequentando o consultório de uma psicóloga.
O guri teve que comparecer duas vezes por semana por um longo tempo na tal psicóloga, sempre jurando que a história do helicóptero era verdade, o que já estava fazendo a profissional de psicologia pensar em encaminhá-lo para o psiquiatra. O caso parecia sério.
Aproximadamente três meses depois, terminado o verão, todos de volta para a casa da cidade, o telefone tocou. A mãe atendeu, era a prima delegada pedindo pelo primo mais novo, ele não estava, tinha ido à psicóloga, mas a mãe perguntou do que se tratava e a prima explicou:
- Eu queria saber se por um acaso não encontraram a luva do piloto que esqueceram na casa da praia?
- Luva, que luva? Indagou a mãe.
- A do piloto. O primo não contou que estivemos lá de helicóptero e tudo? Pois é, esquecemos a luva, se acharem por lá, por favor, me entreguem aqui em casa. Abraço!
O fato se deu em uma praia, nas férias de verão, e por mais incrível que possa parecer dizem que foi verdade.
Dois irmãos foram juntos para o balneário e os pais ficaram na cidade trabalhando. O que não seria de todo um problema visto que o mais velho tinha vinte e cinco anos e o outro, dezesseis. Um era jogador de futebol profissional, o outro estudante do ensino médio. Até aí tudo normal, se não estivéssemos tratando de irmãos, sozinhos, na praia, convivendo juntos por algumas semanas e ninguém para impedir as implicâncias e apartar as tradicionais brigas.
O irmão mais velho todo dia pelo final da manhã ia para a beira-mar jogar futevolei. Talvez jogador de futebol seja o único profissional que tira férias para fazer exatamente o que faz quando está trabalhando, ou seja, jogar bola. Mas antes de sair, todo dia, ele deixava pronto uma jarra com dois litros de isotônico.
O isotônico é uma bebida constituída por água, sais minerais e carboidratos, quase na mesma concentração dos fluidos do corpo e que o atleta toma para repor líquidos e sais minerais perdidos pelo suor durante a transpiração, com efeito de prevenir a desidratação e melhorar a performance esportiva. Ou seja, frescura de jogador de futebol.
O problema começou logo no segundo dia. Após algumas horas de futevolei num sol escaldante, o jogador ao voltar para casa próximo das três da tarde, com muita sede, ao abrir a geladeira para pegar sua bebida, surpresa! A jarra, que estava cheia quando ele saiu, não devia ter mais que um terço do que ele tinha deixado. O irmão mais novo tinha acordado quase ao meio-dia, achou ótimo encontrar aquele suco na geladeira e bebeu, bebeu e quando estava quase estourando, bebeu mais um pouco.
Estava feita a confusão, o mais velho fez a maior gritaria e ameaçou o mais novo que dá próxima vez ele iria tomar uma atitude mais contundente. O que na fraternal línguagem de irmãos significa “porrada” mesmo.
Nos dias que se seguiram aconteceu rigorosamente a mesma coisa, um ameaçava, o outro bebia. Aquele guri adolescente parecia a encarnação do demo. Não estava nem aí para as promessas do mais velho, que tolerou enquanto conseguiu, mas toda paciência tem limite.
Após duas semanas nesse embate e nas promessas diárias de esbofetear o irmão, o mais velho resolveu agir. Ao sair pela manhã foi ao quarto do mais novo, acordou o desgraçado e o jurou de morte. Se ele pegasse o suco aquele dia o bicho iria pegar.
Quando o mais novo acordou naquela manhã, foi na geladeira pegou o isotônico e lembrou-se das ameaças. Resolveu nesse dia tomar um achocolatado e esperar o mais velho se acalmar um pouco, afinal prudência estratégica poderia ser muito saudável naquela situação e aparentemente as advertências finalmente surtiram efeito. Talvez a parte mais dificil de engolir a respeito dos fatos deste dia é que o guri achou a casa suja e pensou em limpar. Sim, fazia duas semanas que estavam na casa da praia e nunca tinham passado uma vassoura no chão, já tinha uma camada de areia da cozinha até a sala. A situação era tão nojenta que ele resolveu fazer o improvável, pensou em marcar uns pontos com o mano mais velho e varrer o chão.
Pegou a vassoura e começou a varrer. Lá pelas tantas começou ouvir um barulho alto vindo da rua, foi até o pátio e viu voando baixo, rasante mesmo, um helicóptero da polícia bem em cima da casa. Mas era tão baixo que o vento que as hélices faziam começou a jogar de volta para dentro de casa toda a areia que ele tinha varrido para fora. O guri enlouqueceu. De vassoura empunho apontava para os policias que sobrevoavam a casa, xingava, fazia gestos obcenos e já estava a ponto de arremessar a vassoura na aeronave quando a mesma se afastou da casa.
Ele, louco da vida, começou a varrer de novo. Toda a areia e mais um pouco tinha voltado para dentro de casa. Após alguns minutos do reinicio da varreção ele escutou o barulho do portão ranger. Portão de praia, com aquela tradicional maresia, sempre faz o clássico “nhéééc”.
Foi na porta da cozinha, que ficava do lado da casa, espiou para ver quem era e nesse momento teve um ataque de pavor. Entrava no portão três policiais, armados e de colete à prova de balas. Ele pensou em se ajoelhar e pedir perdão por ter feito os xingamentos, dizem alguns mais chegados que para a cueca foi perda total. Mas logo atrás dos policiais entraram mais duas pessoas, uma prima e outro policial que aparentava estar vestido como um piloto. A prima é delegada em cidade próxima ao balneário e era ela que estava no helicóptero, aeronave utilizada na operação que a polícia fazia nas férias. Contou que sobrevoara a casa para ver se tinha alguém, pois o piloto não estava se sentindo bem e dada a situação de indisposição ela achou que seria uma boa idéia parar ali, o que fizeram, pousando em um terreno próximo e indo a pé até a dita moradia.
A prima delegada perguntou se tinham alguma coisa para oferecer para o piloto e o caçula teve a brilhante idéia:
- Tem isotônico, serve?
Claro que servia, com a sede que estavam qualquer coisa gelada servia. E os políciais tomaram todo o isotônico. Todinho. E pior, após beberem ficaram somente mais alguns minutos, como o piloto já estava se sentindo melhor, agradeceram e foram embora.
Quando o mais novo se deu conta da bobagem que tinha feito entrou em pânico. Pensou em fazer um suco novo. Nunca tinha feito o tal isotônico, mas entre morrer e tentar fazer a bebida, a segunda opção parecia melhor, mas nesse momento de dúvida ele escutou o portão abrir de novo e para desespero total era o irmão mais velho. O guri correu para sala e ficou atrás da mesa com uma remota esperança de escapar vivo.
O jogador chegou, viu a garafa vazia em cima da mesa da cozinha e abriu a geladeira. Nesse momento teve a certeza que teria que cometer um assassinato. Totalmente transtornado saiu à caça do mais novo. Encontrou o caçula com uma cara de pânico atrás da mesa da sala gritando:
- Eu posso explicar! Eu posso explicar!
Ficaram correndo como dois malucos ao entorno da mesa, mas não demorou muito para o mais velho pegar o mais novo. O maior pegou o menor pelo pescoço, daquele jeito em que os pés ficam balançando no ar, apontou a mão fechada como se fosse disparar um direto no nariz e disse praticamente como uma sentença de morte:
- Explica.
As palavras não saiam da boca do guri, que respirando como dava, já que praticamente estava sendo estrangulado, disse:
- Cara tu não vai acreditar, mas desceram quatro caras de helicóptero e tomaram todo o isotônico e a prima tava junto.
Nem preciso dizer que após esse relato tão inacreditável quanto o ET de Varginha, a condenação já estava definida. Iria rolar muita pancada.
O mais velho respirou fundo, soltou o pescoço do mais novo e dasanimadamente concluiu:
- Tu é maluco, não é possível. Nunca ouvi tanta mentira junto. Bater em ti não adianta. Se eu não fizer nada tu nunca vai mudar.
Pegou o telefone e ligou para casa, falou com a mãe e tomaram uma importante decisão, iriam mandar o irmão caçula de volta para casa, ele iria passar o resto do verão frequentando o consultório de uma psicóloga.
O guri teve que comparecer duas vezes por semana por um longo tempo na tal psicóloga, sempre jurando que a história do helicóptero era verdade, o que já estava fazendo a profissional de psicologia pensar em encaminhá-lo para o psiquiatra. O caso parecia sério.
Aproximadamente três meses depois, terminado o verão, todos de volta para a casa da cidade, o telefone tocou. A mãe atendeu, era a prima delegada pedindo pelo primo mais novo, ele não estava, tinha ido à psicóloga, mas a mãe perguntou do que se tratava e a prima explicou:
- Eu queria saber se por um acaso não encontraram a luva do piloto que esqueceram na casa da praia?
- Luva, que luva? Indagou a mãe.
- A do piloto. O primo não contou que estivemos lá de helicóptero e tudo? Pois é, esquecemos a luva, se acharem por lá, por favor, me entreguem aqui em casa. Abraço!

